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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

ESQUECI DE ME LEMBRAR

No sertão é assim, de inverno a verão, quando o galo canta na madrugada os moradores da roça acordam muito cedo e enquanto as mulheres preparam o café, os homens caem na estrada, vão soltar os bezerros e tirar leite das vacas, outros se embrenham nas matas para cortar lenha, colocar ração para o gado, roçar mato, cuidar do galinheiro, da pocilga, dentre tantos outros afazeres, e nas minhas andanças em busca de mais elementos para o meu livro, parei na porteira de um sítio todo arborizado, contendo fruteiras de várias espécies e um pequeno jardim colorido ao redor da casa, então fiquei observando Dona Zica, esse era o nome dela que me falaram, mulher sertaneja nata, parteira afamada da região, sem papas na língua, estava sentada no terreiro da casa para catar uma cuia de feijão o qual estava dentro de uma bacia de alumínio, o mesmo ia ser cozinhado na panela de barro e no fogão de lenha, então tomei coragem e gritei: Ò de casa!



-Ô de fora, lovado seja Nosso Senhor Jesuis Cristo!


-Para sempre seja louvado, respondi. 

-Pode entrá e se achegue aqui nesse banquinho, assim o fiz, entrei, cumprimentei a mulher, sentei no banquinho ao lado dela, ofereceu-me uma xícara de café que aceitei de bom grado, e passamos a conversar sobre o tempo, a vida no interior, enfim, de tudo um pouco, mas de repente, sem levantar os olhos, ela grita chamando um dos filhos:

-Zezin, vem cá, meu fio, corre buscá água no barreiro pra mode encher os potes e cozinhar pra esse povo! O rapaz sai, e nessa hora ela fica remuendo nos pensamentos: Vige do céu, esqueci de comprá um pedaço de jabá pra temperá o fejão...E lá vai ela, de novo a gritar chamando o companheiro chamado Sebastião que está a uns cinqüenta metros da casa, de cabeça baixa, ajeitando uma cerca de arame farpado, e o grito ecoa no ar,

-Tião!

-Oi, muié, o que tu qué?

-Quero que tu vá na budega!

-Fazê o que na budega, muié?

-Comprá um pedaço de jabá pra mode temperá o fejão e nois temo visita, tu vai!?

-Tá bom, eu vou já, tenha carma! O tempo passou e nada de Sebastião chegar com o pedido da esposa, porém algumas horas depois, já arretada da vida dona Zica grita pro marido da porta da casa.

-Tião, fi duma égua!

-Fala, muié danada!

-Tu fosse na budega comprá o que eu pedi?

-Ara, fui sim, sinhora!

-E cadê que tu num veio me trazê?

-Mai eu comprei, cabôca veia, tá aqui!

-E tu pagô ou mandô botá na caderneta?

-Craro que paguei, oxente, ninguém me dá nada de graça!

-Trais aqui e me diz, quanto foi?

-Foi quinhentos contos de réis.

-Vige, e foi tão caro assim, homi?

-Tá tudo pela hora da morte, Zica! Dona Zica abre o pacote e lá não tinha a mercadoria que ela mandou comprar, já arretada da vida, aí o bicho pegou,

-Fi dessa, daquela outra, fi duma égua, eu num pidi isso não sinhô!

-Oxente, vige Maria, e o que foi mermo que tu mandou eu comprá, muié de Deus?

-Ara, tu ta se fazendo de moco, fi da bixiga, me alembro qui mandei tu comprá um pedaço de jabá e tu, bicho véi, veio cum uma garrafa de prefume, ainda mai dum xero isquisito qui num gosto, vôte, apois agora tu vai comê fejão chirre pra mode apendê, cabra véi!

-Agora danou-se, discurpa eu, minha véia, esqueci de mim alembrá! Bem, eu vi a coisa tão feia que resolvi dar uma desculpa qualquer, me despedi do casal e saí dali mais ligeiro do que rapidamente, e esse era o retrato e o linguajar dos habitantes antigos que moravam nas redondezas da cidade.

Escritora Mj, em 09/02/2017

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

EXPRESSÃO PESSOAL

A linguagem no sertão rica em sabedoria
Pode não ser entendida no linguajar de vocês
Falo “oxente, arriégua, meu irmão, vige maria
Não se avexe, venha pra cá, se assente, hum”
E o meu “tá certo” é trocado por “ok” todo dia
Mas “Danou-se”, não aceito desafio com maldade
Tou quieta no meu cantinho sem amargura
Por isso não “me aperreio” na forma de me expressar
Aqui ou em outro lugar estrangeiro, aclamo
Não posso mudar pra agradar a quem quer que seja
Sou simples sertaneja e não uma beldade
Sem eira e nem beira vou afirmando 

E sorrindo falo pra todo mundo
“nordestinês” do meu Brasil brasileiro
E levando na alma a ousadia dum poeta alagoano
Escrevo da cidade de Palmeira dos Índios
Considerada o berço da cultura.


(Escritora Mj, em 21/12/2016)