terça-feira, 22 de novembro de 2016

METAMORFOSE DA VIDA

A beleza do mar azul se iguala com a cor do céu, e o barulho das suas águas que deságuam como espuma na areia branca da praia, dá uma sensação gostosa de renovação da vida, e para completar esse quadro, vê-se ao longe um navio atracado esperando chegar o momento de se aproximar do porto, por sua vez, os coqueirais cantam seus ais incontroláveis em sobressaltos de encher os olhos dos apreciadores, e as suas folhas bailam com o ritmo da música de acordo com a batuta do vento soprando forte em outra direção, escrevendo canções que a memória jamais esquecerá, fico inerte com a beleza da natureza, então neste enleio vem-me à mente que somos nuvens passageiras e temos que aproveitar os bons momentos, a partir daí, no silêncio da calmaria amo tudo isso e vou arriscando um voo rasante na casa dos sonhos num verdadeiro clima de liberdade o qual entrou na minha mente como um foguete em chamas, e o vento que sopra ao leste dos vinhedos e bananais numa imagem sem maquiagem deu-me várias oportunidades. 

Muita gente nas ruas comentando sobre a situação do país, as notícias do século corriam à boca miúda diante das inúmeras reportagens que passavam em vários canais das TVs ligadas nas lojas de eletrodomésticos, e naquela hora deu-me uma vontade enorme de entrar no bar e tomar um aperitivo antes do almoço, o ambiente estava lotado, ao fundo vi uma mesa desocupada, aproveitei e me dirigi até lá enquanto o barman aproximava-se anunciando o cardápio do dia, era irresistível o cheiro da comida, das carnes grelhadas a olho nu, apesar do céu nublado pedi uma cerveja bem gelada com uma rodela de limão e tira gosto de calabresa enfeitado com tomates, cebola e um punhado de batata palha, confesso, o assunto em tela não me interessava, quis fugir de determinados comentários, logo adiante um casal esperava pacientemente para ser atendido, não havia mais vaga e minha mesa comportava mais três pessoas, este casal vai me tirar da enrascada, pensei, fiz um gesto com a mão chamando-o, atendeu e os dois fizeram-me companhia, observei-os de perto, a mulher bem vestida mantinha um ar de preocupação e não retirava os olhos do seu acompanhante o qual mantinha a cabeça baixa, alheio a tudo e a todos, ele sonha sonhos inigualáveis, enquanto isso fala dormindo e de olhos fechados vai escrevendo os sentimentos, através de frases sem nexo, pausando-as de vez em quando para coordenar os pensamentos, como algo que falta ao amanhecer dando uma sensação indescritível, mesmo disfarçando notei que o mesmo balbuciava alguma coisa e a mulher encostando sua boca no ouvido dele, e sem soltar-lhe o braço, falou nitidamente,



- Tenha calma, você está fazendo uma viagem no tempo e tomando o rumo de um amor inacabado, mas se vive o presente é melhor não olhar para o passado, porque ele agora servirá de espelho para o seu futuro, e a boca jamais pronuncia o que se esconde no pensamento, a não ser em sonhos inventados, como agora, segue travando suas batalhas chegando a uma infância e juventude quase pela metade, virando-se para o lado oposto, pergunta se a companheira entende o que ele está falando,


- Sim, entendo, responde solícita e atenta a cada palavra, entretanto ele não estava ouvindo absolutamente nada, e como ela era conhecedora da sua maneira, esqueceu o sono revigorador e deixou-o continuar nos seus devaneios,

- Homem ao mar, homem ao mar, sigam-nos os bons! Ou então,

- Façam suas apostas, senhores, vermelho 23! E ia mais além,

- Não pode se entregar por esta vida marvada, há se eu pudesse...O que você está fazendo? Ou ainda,

- Bebo a desgraça do fracasso
Numa mesa de bar sozinho 
Pra afogar certas mágoas
De alguém que não cresceu
Mas isto serve de exemplo
Pra que não aprenda a confiar
No diabo que apareceu. 

Mesmo sabendo que em seus devaneios ele não a ouvia, sua companheira tentava replicar. Eu não me contive, ouvi calado toda aquela história, mas em dado momento perguntei quais foram os motivos que levaram o senhor “Neguinho das pedaladas”, como a sua esposa o chamara, todas as noites ter seu sono agitado, então a esposa me falou que num determinado dia ele pegou a estrada da mata para cortar molhos de palmeira, fazerem cestos e venderem. era assim teriam mais uma renda no final do mês, e ao chegar lá levou uma carreira danada, escondeu-se atrás de uma moita e viu o danado de um preá pendurado na boleia do caminhão, retornou pela estrada, ao longe encontrou uma casa com varanda e ali estava uma menina sentada numa rede balançando pregada em dois esteios, quando ela olhou começou a gritar, “ai, sai seu Zé”! Ele disse que correu para acudir a tal menina, pois pensou que ela estava em apuros, olhou para os lados e sem querer avistou um bezerro voando, dizendo que quando olhou o bezerro o referido pedia passagem, minha filha, meu marido disse que em dado momento sentiu tanto medo que caiu de ribanceira abaixo, arranhou-se todinho, desmaiou e quando acordou tinha um passarinho cantarolando ao lado, bem que te vi...era um bem te vi, foi assim que ele voltou para casa desanimado, amarelo, muito chateado porque não conseguiu o que queria, daí por diante ficou desse jeito desmemoriado, mas quando dorme lembra tim, tim, por tim, tim, é inacreditável.

- Como você conheceu “Neguinho das pedaladas”?


- Conheci-o, respondeu Virna, se apresentando nos semáforos, nos pontos de ônibus lotados das praças, com uma bola e uma bike aro 29, ora ele estava com a bola na cabeça, ora com a bicicleta, sempre fazendo suas piruetas, daí a população o batizou carinhosamente com esse nome, fui embora, porém quinze dias depois retornei e o encontrei com da primeira vez fazendo as mesmas coisas, então sentei ao lado esquecendo-me do tempo e quando ele terminou seu trabalho me cumprimentou com um sorriso, conversamos por horas intermináveis e para encurtar a história, o senhor acredite ou não, em pouco tempo estávamos casados, mas como lhe relatei, após o trauma sofrido ele foi diagnosticado com a síndrome do pânico, não pode ficar um só instante sozinho, porém teve um dia que me descuidei dele e senti que alguém tentava despertar-me, abri os olhos e ainda sem acreditar, este alguém com uma folha de papel nas mãos diz por entre o espesso vidro transparente,

- Cuidado com o “coelho”! Procurei embaixo dos bancos na sala de espera do consultório e não vi coelho algum, isso deveras me assustou, porque aquela não era a minha intenção de machucar qualquer animal, e continuo falando porque as pessoas ao redor não retiravam os olhos de mim,

- Qual coelho o senhor está a falar? Por aqui não passou nenhum bicho, mas o homem abre a estreita porta com cuidado, caminha na minha direção aparentando um pouco de preocupação, e sem deixar de sorrir, retruca apontando o local, nossa, que equívoco, eu pensei comigo mesma, 

- Senhora, o seu “joelho” está inchado, por isso falei que precisa ter cuidado com ele, aqui tem mais espaço, colocando um banco para que eu estirasse a minha perna, agradeci a gentileza e retribui o sorriso amável daquele homem, assim novamente fechei os meus olhos e continuei a ruminar os meus pensamentos que naquele instante eram muitos, dez minutos depois fui interrompida, chamaram-me pelo nome, chegou a minha vez de entrar para fazer o exame tão esperando, porque coração não é brinquedo e enquanto ele continuar pulsando, haverá dentro de mim uma paixão escondida no seguimento da própria vida. 

Pousando aqui e acolá, o homem escreve momentos enquanto que a mulher mesmo freando seu ego, sai descrevendo sentimentos, e outros nem isso fazem, se isolam do mundo, mas o amanhã é uma incógnita, cheio de surpresas, e nas idas e vindas retornam para o mesmo lugar, é por isso que mantenho vários cadernos atualizados e guardados.


(Escritora Maria José da Conceição<Mj>, em 22/11/2016)

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